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CDU Valongo

Página informativa sobre a atividade da CDU no concelho de Valongo.

Papiniano Carlos, 1918 - 2012

16.12.12
Papiniano Carlos, poeta, escritor, lutador anti-fascista, comunista, morreu dia 5, aos 94 anos. Deixa-nos uma notável obra literária e o seu assinalável exemplo de homem e de comunista. Papiniano Carlos vivia aqui ao lado, em Pedrouços, na Maia, com Olívia Vasconcelos, sua companheira de toda a vida. Era também nosso vizinho.
Transcrevemos a nota publicada pelo Sector Intelectual de Lisboa do PCP, por ocasião do falecimento de Papiniano Carlos.
 


Poeta e ficcionista da 1ª. Geração do neo-realismo português, Papiniano Carlos nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, a 9 de Novembro de 1918. Aos 10 anos, fixou-se no Porto, cidade onde viveu e estudou e cumpriu o fundamental da sua vida de autor prolixo e exigente.
Com mais de 60 anos de militância no PCP, tendo aderido na década de 1940, e participando de acções na clandestinidade com o nome “Garcia”, em homenagem ao poeta andaluz Frederico Garcia Lorca, o autor de SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA, foi afastado do ensino oficial pela ditadura fascista por se ter recusado, enquanto funcionário público, a assinar a famigerada “declaração anticomunista”.
O seu primeiro livro de poesia, Esboço, foi publicado em 1942, seguindo-se-lhe, na ficção, o romance TERRA, e o notável ESTRADA NOVA, com capa de Júlio Pomar, texto que contribuiu decisivamente para o seu reconhecimento público. A Pide, atenta, apreendeu a obra. Também Papiniano Carlos não escapou às sevícias e às prisões do regime.
Dirigiu, entre 1957/61, com Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Daniel Filipe, os fascículos de poesia Notícias do Bloqueio, e colaborou como autor e crítico nas revistas Vértice e Seara Nova. Pertenceu, igualmente, aos corpos directivos do TEP – Teatro Experimental do Porto.
Da sua vasta obra, salientamos: MÃE TERRA; AS FLORESTAS E OS VENTOS; ROSA NOCTURNA; A AVE SOBRE A CIDADE; O RIO NA TREVA. O seu livro para a infância A MENINA GOTINHA DE ÁGUA, do qual existem inúmeras edições, é justamente considerado um dos mais importantes livros publicados em Portugal para os mais jovens e é, ainda hoje, um dos grandes acontecimentos literários alguma vez publicados entre nós para aquele grupo etário.
Senhor de uma escrita límpida e rigorosa, com uma incomum capacidade discursiva e imagética, de grande intensidade metafórica, a sua poesia espelha com amplo fulgor, o pulsar de um tempo, do nosso tempo, denunciando injustiças e sujeições, pugnando, num rasante lírico primordial, por uma sociedade de verdade, igualdade e tolerância, por uma ordem social da qual estejam ausentes o medo, a ignorância e a exploração – uma sociedade fraterna e solidária.
A sua ficção e a sua poesia expressam a profunda humanidade que sempre transportava nos seus gestos e na sua acção cívica e cultural. Papiniano Carlos é feitor de uma escrita modelar, luminosa, de grande coragem intelectual mesmo quando o lírico e o sentido pedagógico atravessam os seus textos e uma luminosidade contagiante integra esse discurso que se faz na raiz da língua e das suas mais sensitivas vibrações. Estas componentes estão, de forma pedagogicamente brilhante, espelhadas nos seus textos para a infância e a juventude.
Mesmo depois do seu desaparecimento, nós, companheiros seus de luta e de versos, continuaremos, como ele queria, a Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, e a caminhar serenos e determinados por um futuro digno desta pátria de todos nós, em busca do país da aurora/ Já que o cárcere não basta/para a ave inviolável,/que temer, ó querida?/caminhemos serenos(…) No pavor da floresta gelada/através das torturas, através da morte,/em busca do país da aurora,/de mãos dadas, querida, de mãos dadas/caminhemos serenos.

 
Em Maio de 2005, as organizações de Pedrouços, Águas Santas e Ermesinde do PCP editaram conjuntamente uma plaquete com o seu poema inédito "Canto Fraternal", escrito em 1945, ao findar a II Guerra Mundial com a Vitória dos Aliados.
Há ainda exemplares desta edição para venda no Centro de Trabalho de Ermesinde do PCP.

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