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CDU Valongo

Página informativa sobre a atividade da CDU no concelho de Valongo.

Assembleia de Freguesia de Ermesinde - Intervenção sobre o Património de Ermesinde

01.01.09

Valongo era ainda há uns 30 ou 40 anos, um concelho rural, tal como a vizinha Maia. Terras de cultura de milho e azevéns, algumas leiras de centeio, necessário para “terçar” com o milho na feitura do pão (boroa), vinha em forma de ramadas na bordadura dos campos, gado leiteiro, algum linho já em declínio, as hortícolas que se vendiam bem para o Porto. Um prolongado processo de crescimento urbanístico caótico, que se seguiu a uma incipiente industrialização, descaracterizou Ermesinde e de resto, grande parte do concelho. Os férteis solos da Gandra de Ermesinde, por exemplo ou os solos xistosos do vale de Valongo, desapareceram debaixo de prédios e arruamentos que hoje formam as duas cidades do concelho.

Ermesinde era também um importante centro moageiro, com grande número de moinhos tradicionais movidos a água.

O património rural mais intacto do concelho reduz-se hoje à semi-deserta aldeia de Couce e a alguns núcleos rurais espalhados pelas cinco freguesias do concelho, com as suas casas e assentos de lavoura, mais ou menos preservados, mais ou menos “modernizados”.

A agricultura tradicional do Minho e Douro Litoral, de cujo facies agrícola o nosso concelho partilha, tinha na cultura no milho a mais importante fonte de rendimento. Mudanças nos mercados dos produtos agrícolas – com a manutenção em valores absolutos do preço do milho há mais de 30 anos – migração, urbanização das populações, mudanças dos hábitos alimentares, com o abandono do consumo massivo de pão de milho, levaram ao abandono da cultura.

Algumas das antigas quintas sobreviventes ao processo caótico de urbanização ainda em curso, reconverteram toda a sua actividade, para poderem sobreviver, encontrando-se hoje no concelho, grandes pomares de kiwi e vinhas contínuas para produção de Vinho Verde. Sobrevivem também algumas explorações leiteiras, abastecidas pela silagem de milho produzida em terrenos próprios, que constitui a base da alimentação das vacas. Engarrafam-se até vinhos e produzem-se queijos no nosso concelho. O futuro desta actividade agrícola é incerto, dada a evolução da PAC.

A interpenetração deste mundo rural e agrícola sobrevivente com uma malha urbana densa, torna também interessante, sobretudo para os pequenos produtores, a produção de hortícolas, e outras “curiosidades”., vendidos regularmente nas feiras realizadas semanalmente em diversas localidades do concelho. Esta venda de produtos agrícolas na feira, directamente pelos pequenos produtores, é uma das marcas inequivocamente vivas da antiga ruralidade do concelho de Valongo.

Como na periferia de todas as cidades, mantém-se também em Ermesinde uma agricultura peri-urbana de auto-consumo, praticada sobretudo por pessoas da geração dos 50- 70 anos, muitas delas já reformadas. Esta agricultura de pequeníssimas dimensões, pode dizer-se que faz parte integrante da nossa ruralidade sempre latente e tem a maioria dos seus cultores entre pessoas originárias de meios rurais do interior Norte, que vieram viver sobretudo para Ermesinde.

Romarias de inegáveis origens rurais realizam-se à Santa Justa, em Valongo, à Santa Rita, em Ermesinde, ao São Lourenço, também em Ermesinde, etc..

A importância do património tem muitas vertentes. Pode ser económica, na medida em que a manutenção das actividades agrícolas produz bens e riqueza e assegura a sobrevivência das pessoas. A preservação da ruralidade pode ter interesse turístico, que é uma outra vertente económica da questão. Pode ser de interesse histórico, dada a necessidade de preservação da memória, das raízes, de educação das novas gerações no respeito por uma actividade essencial à vida, que é a agricultura, a mais velha profissão do mundo. Ecológica e ambiental, contribuindo para o equilíbrio natural, num concelho cujo crescimento urbano continua a ser pouco planificado.

No que toca à necessária e urgente preservação deste património, apenas algumas iniciativas esporádicas, que não obedecem a nenhum plano integrado, levadas a cabo sobretudo pela Câmara Municipal, na aldeia de Couce, intervenção para reabilitar as ruínas de um ou outro moinho e nada mais.

Por outro lado, o concelho tem visto devastar, com a participação activa do município, as suas melhores terras agrícolas (a Gandra de Ermesinde, a extensa e fértil veiga de Alfena, rasgada há poucos anos por uma estrada de iniciativa camarária, o vale de Valongo, etc..).

Para preservar o que resta da ruralidade deste concelho e que é ainda apreciável, seriam necessárias acções de promoção dos seus produtos agrícolas, a reabilitação de estruturas da era pré-industrial, de que o melhor exemplo são os moinhos de rio (Leça, Ferreira, Simão), a protecção de terras agrícolas e núcleos rurais, impedindo a urbanização sem critério a que temos assistido.

Não existe nenhum núcleo museológico rural no concelho, nem qualquer intenção conhecida de o realizar.

Seria, por isso, do maior interesse a constituição de um núcleo museológico que acolhesse e preservasse o património móvel rural (alfaias e outros equipamentos agrícolas, trasteio doméstico, vestuário), que for ainda possível recolher e preservar.

A Junta de Ermesinde poderia e deveria empenhar-se politicamente nesta iniciativa. A nova biblioteca especializada instalada neste edifício, poderia acolher um centro dinamizador de acções tendentes à recolha, estudo e posterior apresentação pública duma colecção de artefactos ligados à ruralidade de Ermesinde, constituindo assim o núcleo museológico de que falo.

A Câmara Municipal, pelo poder que detém de licenciar obras, deveria ter um papel activo de preservação do património rural, quer na forma de solos, património vegetal, cursos de água, quer na de património construído, incentivando a preservação das antigas casas agrícolas e dos núcleos rurais que restam.

Ermesinde, 29 de Dezembro de 2008

Pelo PCP

 

2 comentários

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    MAresta 15.01.2009

    Camarada

    A minha agenda de trabalho não me tem permitido dedicar muito tempo a estes temas, mas é claro que o texto aqui apresentado deveria ser um ponto de partida para uma discussão ampla e o mais abrangente possível dos temas abordados. As últimas décadas têm sido de autêntica devastação no que se refere à destruição do património do concelho de Valongo, em todas as suas vertentes.
    Resido actualmente na Galiza, e no concelho de Ames, onde vivo, existe um projecto iniciado há pouco mais de um ano com o apoio de três concelhos vizinhos, destinado a promover a agricultura sustentável de pequena dimensão: http://proxectoamorodo.org , cuja página Web vale a pena visitar, porque se trata de um exemplo positivo de recuperação da agricultura local, orientado para a promoção dos valores ecológicos e de sustentabilidade a nível socio-económico.
    Este tipo de iniciativas poderia bem ser levado a cabo, mesmo se não nos mesmos moldes, a nível concelhio ou regional, contribuindo para a sobrevivência do património agrícola do concelho e da região, e para a criação de emprego, e para uma transformação dos hábitos de consumo da população local. A associação de pequenos agricultores numa entidade que facilita a distribuição e colocação dos produtos locais, e a criação de uma rede de mercados locais para estes produtos, e a viabilização de um desenvolvimento económico sustentável centrado na produção agrícola são alguns dos objectivos do projecto, que tem também uma componente pedagógica e cultural, oferecendo cursos de formação em diversas áreas relacionadas com a actividade agrícola para adultos, e também nas escolas.

    Claro que para isso seria preciso que a autarquia tivesse qualquer empenho na recuperação e preservação do nosso património, o que infelizmente não é o caso.

    A tão alardeada recuperação da aldeia de Couce com vista ao desenvolvimento de um projecto de ecoturismo, a reflorestação das serras e a preservação dos espaços verdes do concelho não eram apostas tão rentáveis para a autarquia como o preço do metro quadrado de solo edificável. E agora que a crise da construção é uma realidade iniludível, temos um concelho semeado de construções inacabadas, de terrenos improdutivos, de prédios vazios, de “parques urbanos” com nome de autarca, e cada vez mais desemprego.

    Mas sobre este tema há muito para dizer, e também a necessidade de um espaço de reflexão e autocrítica. Porque todos somos um pouco culpados por assistir sem resistir à sistemática destruição do património do concelho, como é o caso da “Nova Valongo”, que significou a destruição irreversível do núcleo mineiro mais importante do património industrial do concelho. O património arqueológico continua ao abandono e, o que é pior, a ser vítima dos re-enquadramentos urbanísticos tão do agrado deste executivo, que não fazem mais do que desfigurá-lo (caso do núcleo de cruzes do túmulo, no Suzão, e da zona envolvente da capela da Santa Justa), e o património urbano vai-se desmoronando pouco a pouco, o que é facilmente constatável com um passeio a pé pelo centro de Valongo.

    É tempo de avançar com propostas positivas e construtivas, com vista à elaboração de um plano de recuperação e de revalorização do já escasso património que ainda existe.
    A CDU deve assumir desde já esse compromisso, com propostas realistas e viáveis a curto prazo. Antes que seja tarde.
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